QUEM SABE?

Quem sabe se o outono
curvado diante de mim
está tão cansado como eu,
pintando de castanhos a saudade?

Quem sabe se pelo granito dos montados,
aos raios do sol vibrados,
ri deslumbrada a natureza
e os lábios vermelhos da tarde
banham-se em filetes de água,
banhando meus ais ?

Quem sabe de mim,
das minhas consolações,
do corpo que arrefece,
das angustiantes razões,
das dós que a vida aquece ?

Quem sabe se pela cortina de tempo,
sulcada de errantes trilhos,
não sou mais do que apenas,
o sentimento procurado,
a vida em tantas penas ?



GUARDADO PARA SEMPRE...

Guardado para sempre nas tuas recordações...
Seguramente no fundo duma gaveta,
fechado à chave.

...como quem fecha a memória do tempo,
na escuridão do esquecimento...

...como quem esconde a cobardia,
mascarando a verdade...

...como quem substituí afectos
na facilitada conveniência...

Guardado para sempre nas tuas recordações...

Porque o coração traíu
ou porque a voz é rouca?

Porque o tempo marca a distância
ou distância engole o tempo?

Porque os dias cansam
ou porque a noite tem outro leito?

Guardado para sempre nas tuas recordações...

Até que os dias passem, a verdade se deturpe
e tudo se esqueça...


CONFISSÃO

Dir-te-ei que segredos guardo
quando o conforto da palavra
aquecer a liberdade
do gesto que desenho e rasgo.

Dir-te-ei tudo.

...Mesmo que a saudade morra
num beijo
e os lírios enfeitem
o vazio do desejo.

SE EU FOSSE O LUAR BRANDO

Se eu fosse o luar
brando

que tua janela atravessa,

ficaria em ti

brilhando

aureolando tua cabeça


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