Armando Sousa

Já Pensas-te?

Meus amigos, já pensa-te nas regalias que perdeste ou deixares
um pouco de tua pobreza e entrares numa classe média, e uns dias
por ano entrares na classe rica?..
Quando somos pobres, mesmo com as calças rotas não nos incomoda, a não
ser por um ar mais frio que entre; mas é recompensado com os dias de calor.
Não perdemos tempo com sonhos muito grandes, o muito que sonhamos é
talvez com um pãozinho fresquinho e dois dedais de aguardente ou então
uma caneca de cevada com cheiro de café.
Para o almoço o meu sonho era uma sopa de couves com feijões,
e uma postinha de carne de porco entremeada.
Mas quantas vezes era só sonho…
Para o jantar, a sopa do meio-dia, duas sardinhas, um naco de pão de milho,
com meio litro de vinho verde, isto porque foi no Minho que nasci.
Depois do jantar, quatro pontapés na bola, ou mesmo um jogo de malha,
ou então se estavas muito cansado, duas de dominó ou de sueca.
Mais á noitinha sentados naquela parede baixinha, muito atenciosos ouvindo
as historias de criar arrepios e levantar cabelos. Ou então duma princesa
encantada e prisioneira naquela grande torre, apenas com uma janela virada para
o mar, era assim castigo de desobediência ao pai, por refutar o preferido namorado,
com que seu pai sonhava, mas que não entrava em seu coração de princesa.
A madrasta mulher maligna, bruxa malvada, lançou-lhe uma maldição que
seu cabelo seria de ouro, e que se a princesa não o arranca-se para trabalhar
usando-o como fios em toalhas ou rendas, ele lhe pesaria tanto ao ponto de
a linda princesinha não poder mover a cabeça, porque o seu cabelo era de
ouro maciço e ela não podia trabalhar tão de pressa como o cabelo crescia.
A linda princesinha de cabelos de ouro, de noite olhava o céu todo estrelado,
e tinha ouvisto dizer que de tantas estrela, uma era a sua alma gêmea, que um
dia a estrela a viria resgatar de seu suplicio de arrastar o ouro de seu cabelo por
causa do egoísmo de sua madrasta e do machismo de seu pai.
Um dia a princesinha, arrancou muitos dos seus cabelos para poder trabalhar
uma temporada, e como seus cabelos cresciam sem parar, ela amarrou-os ás
grades das janela virada para o mar, enquanto ela usava sua travesseira de
bilros para fazer os bordados mais ricos que a imaginação pode conceber.
Assim olhava o mar, mar tenebroso por vezes calmo de encantar.
Ela lá via muitos dias os pescadores a pescar a rirem-se a cantar,
quantas vezes a gargalhar!…
Então na sua tristeza a princesinha começou a sonhar o quanto seria mais
alegre a praia e o mar, apenas com o poder do amar.
Numa das noites em que olhava o estrelado do céu, viu uma estrela que muito
cintilava, de momento viu-a a estrelinha cair a uma velocidade estonteante, e
afundar-se no mar, ela com um grito dilaceram-te, ficou desmaiada sem
acordar ao ver que perto andavam pescadores na faina do mar.
Ao mesmo tempo que a estrela caía no mar tornando a água agitada fez os barcos
perto balouçar ou afundar. De manhã na praia junto à torre jazia um jovem
pescador cansado de tanto nadar.
A princesa via-o ali estendido, pensando que aquele homem belo e
musculoso teria morrido.
A princesinha estava rouca de tanto gritar, mas aos primeiros raios de sol
bater nos olhos do pescador e o fazer acordar.
O pescador no seu sonhar, ouvia os gritos aflitos, que não vinham do mar,
mas do ar……olhou vendo cabelos de ouro que se estendiam da janela
da torre ao chão.
Todos os pensamentos se cruzaram sobressaltando seu pobre coração.
Agarrado aos cabelos e sua paixão subiu a torre a té à janela onde viu a mulher
mais bela que talvez existiria, com um sorriso terno de amor, pelo pescador, ele
ali ficou ouvindo a princesinha contar seu fadário, dizendo-lhe que seu viver era
um calvário, uma por sua madrasta ter inveja de sua grande beleza, e seu pai
apenas dar ouvidos egoístas à grandeza.
Todo o enguiço seria quebrado se seu cabelo fosse cortado e lançado ao mar pelo
homem que sua estrelinha lhe entrega-se para amar.
Zás, o pescador pegou na sua faca de por o peixe em filetes, e logo o cabelo cortou
à princesa, que o abraçou e beijou prometendo ser para ele honestidade amor e
riqueza.
Os dois fugiram da torre e pegaram num barquinho que tinha sido lançado pelo mar
à paia, seguiram à deriva até onde o mar os levou, uma ilha deserta, e assim nessa
ilha mais uma civilização se formou…ao chegar outro pescador que também andava à
deriva, ou enviado pelo salvador, ali viveram até ser velhinhos rodeados de filhos e
amor e muitos carinhos
Pronto meus amigos, os nossos sonhos podem ser pequeninos mas cheios de
carinhos, sonhos de liberdade, sonhos de igualdade, de uma mulher de falas macias,
lábios rosados e molhados, cabelos que encostem ao coração. E nos traga presos
com os laços duma paixão sincera, o seu perfume seja ainda mais intenso que o
perfume da primavera…
Sonhos simples mas efetivos, e tantos são perdidos pela ambição.

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